
Ler e estudar são coisas diferentes
Parar, fazer mais lento, separar as mãos e repetir um trecho é estudar. Ler é seguir em frente. Muita gente nunca desenvolve a leitura porque está sempre estudando: toca duas notas, erra, volta, corrige. Na leitura à primeira vista, a ordem é o contrário. Primeiro atropela, depois corrige.
Antes de tocar: analisar e escolher o andamento
Começar a tocar sem olhar a partitura é um dos erros mais comuns. Antes da primeira nota, vale olhar a fórmula de compasso, a tonalidade, as mudanças de posição e o trecho mais difícil.
O andamento é escolhido por esse trecho mais difícil, e não pelo começo fácil. É o ponto em que, nas palavras do Hélio Tanomaru, o pessoal erra muito feio: escolhe a velocidade pelo primeiro compasso e muda de andamento no meio. Ache o trecho difícil, imagine-se tocando e escolha a velocidade em que dá conta dele, um pouco desafiadora. Essa velocidade vale para a música inteira, desde o primeiro compasso.
Durante a leitura: atropelar as notas, nunca o ritmo
Na leitura, a regra que ele mais repete é esta: pode errar nota, não pode errar ritmo. Se uma nota escapou, siga. Voltar ao começo é proibido. Com o ritmo mantido, o cérebro aprende a ler no tempo, que é o que a leitura à primeira vista exige.
Outras regras do momento da leitura:
- Ler já de mãos juntas. Mãos separadas é coisa de estudo, não de leitura.
- Contar ou sentir os tempos, e não ler só as notas.
- A mente à frente dos dedos. Ao tocar uma nota, os olhos já estão na próxima. O erro comum é desligar o cérebro e ativar os dedos: eles correm, a mente não acompanha, e a pessoa se perde.
- Metrônomo, pelo ouvido e não pela tela. Primeiro a leitura mais quadrada e racional, e só depois o tempo livre.
Os três tipos de leitura
A leitura fica sempre um pouco abaixo do nível do repertório. Quem toca uma peça difícil provavelmente não a leria à primeira vista. O Hélio Tanomaru divide o treino em três tipos:
- Fácil, abaixo do seu nível. O que vale é tempo e ritmo perfeitos. Serve para medir onde você está.
- Difícil, do seu nível de repertório ou um pouco acima. O que vale é a precisão das notas. Pode parar de vez em quando e corrigir só aquele trecho.
- Adequada, um ou dois níveis abaixo do repertório. Desafio com conforto. É onde se passa a maior parte do tempo.
Só fácil deixa a pessoa parada, chovendo no molhado. Só difícil afeta a autoestima e desmotiva. É a curva de estresse descrita por Yerkes e Dodson, em termos simples: com pouco desafio a gente procrastina, com o desafio certo rende mais, e com desafio demais vêm a ansiedade e a queda de rendimento. Para saber em que nível está cada peça, ajuda o repertório de piano clássico por nível.
Tocar sem olhar para as mãos
Quem depende de olhar para baixo chega a um ponto em que a leitura não melhora mais. Quem lê bem quase não olha para as mãos. O caminho é se forçar, mesmo errando mais no começo.
Mexer os olhos, não a cabeça. Mexer a cabeça para baixo e para cima é a pior coisa: a vista não foca e a pessoa se perde na partitura. Olhar para um ponto fixo à frente, usando a visão periférica, em vez de seguir a mão em movimento.
Para treinar o tato, ele sugere passar a mão pelas teclas sem olhar, sentindo os grupos de duas e de três teclas pretas; mover a mão ao acaso, parar e perguntar em que nota está um dedo, deduzir e só depois olhar. Com muito vício, tocar peças fáceis com uma toalha de banho sobre as mãos.
Ler de verdade, e não deduzir
Contar a partir do Dó para achar cada nota é só o começo. Quem fica nisso para sempre nunca fica fluente, porque é um cálculo enorme a cada nota. Cada nota precisa ganhar uma referência própria na pauta e no teclado, como uma palavra que você reconhece sem soletrar.
Por isso ele proíbe escrever o nome ou o número do dedo em toda a partitura. A lápis, fraquinho, numa ou outra nota, e apagando conforme lembra.
Quanto e quando ler
Quinze ou vinte minutos por dia valem mais do que quatro horas num sábado. Quatro horas de leitura no seu nível é insuportável para o cérebro, e se não for, a leitura está fácil demais.
Ler cansa a mente mais do que só tocar, então precisa ser no horário em que você tem energia. Marcar como compromisso, com alarme para começar e para terminar, e deixar as partituras separadas e à mão, porque a hora livre nunca aparece sozinha. Quem começa adulto e acha que é tarde para aprender a ler encontra o contrário em aprender piano depois de adulto.
Perguntas frequentes
O metrônomo não deixa a leitura robótica?
Não. Primeiro se aprende o centro exato do tempo; depois, quem sabe onde ele está consegue acelerar e frear com consciência. Fazer o contrário, e tocar livre antes de saber o tempo, é o que deixa a pessoa insegura em público.
Ler muito pode viciar o movimento?
Pode, se a pessoa lê muito sem cuidar da técnica. O ideal é fazer o movimento certo já na leitura, quando der. Para quem ainda lê com dificuldade, primeiro as notas e o ritmo, e o movimento em seguida. Quem sente a mão endurecer ao ler encontra o porquê em como tocar piano sem tensão.
Em quanto tempo vou ler bem?
Depende de quanto se lê, e não há número honesto. O que o Hélio Tanomaru garante é a direção: quem lê quinze minutos por dia, no nível adequado, sem parar no erro e sem olhar para as mãos, melhora de forma constante. Quem lê quatro horas uma vez por mês, não.
Próximo passo
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