
A regra que vale para todos os níveis
Um aluno perguntou se podia passar horas só na peça que ama, citando o Estudo op. 10 nº 1 de Chopin e o Concerto nº 3 de Rachmaninoff. A resposta do Hélio Tanomaru foi direta: só uns 20% do tempo. A formação de um pianista vem de muitas peças mais simples bem feitas.
A divisão que ele sugere para quem está na base é esta: até uns 20% do tempo na música que você ama, até uns 30% em técnica, e o resto nas músicas do livro do curso.
O motivo é simples. Um estudo de Chopin pede a técnica completa, tudo ao mesmo tempo. Uma música simples usa um elemento aqui, outro ali. É nela que cada elemento se aprende com calma, e é por isso que a peça pequena vale tanto.

Nível iniciante: canções curtas com conteúdo técnico
A primeira melodia que o iniciante lê na partitura, na Técnica Tanomaru, é o começo do Hino à Alegria, de Beethoven, com a mão direita na posição de Dó. Depois vêm as peças do livro dos Iniciantes do Instituto Tanomaru, que são canções tradicionais e infantis: London Bridge, Long Long Ago, Yankee Doodle, O velho Mário tinha um sítio. A última peça do livro é um tema do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
Parecem fáceis demais para um adulto. Não são. Cada uma resolve um problema que vai aparecer de novo nas peças grandes:
- Em Yankee Doodle, uma onda do braço para o grupo inteiro, em vez de uma onda para cada nota, e o tempo 4 fraco, "senão vira funk".
- Em London Bridge, o punho na direção das notas e o dedo 5 levado pelo braço, num contorno, em vez de trabalhar sozinho.
- Em Long Long Ago, a primeira nota sem martelar: o polegar sem jogar e sem derrubar o punho, com um gesto de braço para uma nota só, como quem rege uma orquestra.
- No Lago dos Cisnes, o dedo 5 tenso e fraco passa a ser levado pelo braço, com o punho mais baixo e mais rotação, e as notas repetidas ganham intensidades diferentes.
Os exercícios da base parecem bobos, mas resolvem muito problema.
Quem quer logo uma música conhecida pode ir ao começo de Für Elise e a uma versão facilitada da Sonata ao Luar, as duas de Beethoven. O Hélio Tanomaru avisa que isso é pular etapas: são peças para sentar e praticar ao longo de vários dias, decodificando nota a nota e trecho a trecho.
Nível intermediário: as peças que chegam às masterclasses
Nas masterclasses e nas aulas dos alunos intermediários, as peças que aparecem já são o repertório clássico que a maioria dos adultos sonha tocar:
- Bach: Jesus, Alegria dos Homens, preparada por um aluno para um casamento. O trabalho foi em frases longas, no começo "surgindo do silêncio", na mão esquerda que não pode ficar escondida e em dedilhados que não torcem o punho.
- Beethoven: uma Bagatela, com acordes em forte que criavam tensão no antebraço. A solução passou por aprender em mezzo forte e soltar antes do fundo da tecla.
- Schumann: Kleine Studie, do Álbum para a Juventude, com uma posição de mão para cada compasso.
- Debussy: La fille aux cheveux de lin, com os dedos mais esticados nas teclas pretas e o caráter "docemente expressivo", sem virar Tchaikovsky.
- Chopin: um Noturno, em que a escala rápida pede braço contínuo, sem trancos, e estudo por posições.
- Estudos de Czerny, do op. 299, e de Cramer, para velocidade e leveza.
- Fora do clássico, mas no mesmo caminho: a Valse d'Amélie, de Yann Tiersen, com os arpejos da mão esquerda que saem "soluçados" e pedem estudo sem pedal, e The Entertainer, de Scott Joplin, com as oitavas e a hora de juntar as mãos.
Um recado que o Hélio Tanomaru repete nessas aulas: quando o problema aparece na peça, a solução costuma estar no livro de exercícios do curso, e não em insistir só na peça.
As peças grandes: Rachmaninoff e Chopin
Os Prelúdios op. 23 nº 5 e op. 3 nº 2, de Rachmaninoff, também chegam às aulas dos intermediários, e são de outro tamanho. Saltos rápidos, oitavas fortes, grandes aberturas na mão esquerda, quatro camadas de som ao mesmo tempo. É repertório que cobra tudo o que veio antes.
O Hélio Tanomaru conta que tocou o op. 23 nº 5 quando sabia um terço da técnica que tem hoje, e que ligava as notas da mão esquerda, um vício que corrigiu depois. No trecho mais difícil do op. 3 nº 2, ele diz na própria gravação que não consegue tocar aquilo naquele momento, e mostra como estudaria: separando as camadas, com variações rítmicas contadas em voz alta e com metrônomo.
As ferramentas que ele usa nessas peças servem para qualquer salto ou passagem difícil:
- Planejar, executar e analisar: olhar antes para o destino, tocar, conferir.
- Sombreamento: fazer o gesto do salto sem tocar, de três a sete vezes, antes de tocar de verdade.
- Um gesto grande com gestos menores dentro dele, aprendendo um, dois, três e quatro gestos ao longo de semanas.
- Estudar só a mão que erra.
E um aviso sobre Chopin. Um professor ficou três aulas com o Hélio Tanomaru nos primeiros compassos da Balada nº 1. Ele cita isso como exemplo do que não fazer: avance por trechos e chegue logo ao fim da peça.
Como escolher a próxima peça
- Aprenda notas, movimento e dinâmica juntos desde o começo. Deixar a dinâmica para depois faz uma memória brigar com a outra.
- Estude por partes, repetindo, só nos trechos difíceis. Em música simples, não precisa.
- Livro de exercícios tem dose certa. Exercícios de Cortot e de nota presa ajudam, mas não resolvem: em pequena dose é remédio, em excesso é veneno.
- Nem todo exercício serve para toda mão. O exercício 177A de Beringer, em terças dobradas, não serve para mão média ou grande. Nesse caso, quartas e sextas, Tausig ou o livro 5 do Hélio Tanomaru, variando tons, ritmos e articulações.
- Perder a fluidez de um trecho depois de um tempo parado é normal. Tudo o que não se usa se perde.
Perguntas frequentes
Posso começar pela música que eu amo?
Pode tê-la no caminho, mas ela ocupa uma parte pequena do tempo, uns 20%. O resto vai para peças mais simples bem feitas, que é de onde vem a formação.
Für Elise e Sonata ao Luar servem para iniciante?
O começo de Für Elise e uma versão facilitada da Sonata ao Luar, sim, com a ressalva de que é pular etapas. Für Elise começa em anacruse, no tempo 3 do compasso, e muita gente conta errado desde a primeira nota. São peças para praticar ao longo de vários dias.
Preciso de Czerny, Beringer e outros livros de exercícios?
A técnica pode ocupar até uns 30% do estudo. Os exercícios ajudam quando são bem escolhidos para a sua mão, mas não substituem as peças.
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